• Nina Xaubet

Família Addams: quase 100 anos zoando o normal

O musical: 25 de junho de 2022.

Tal qual a sensação de ver um filme pela primeira vez no cinema, foi a do musical. Só que muito, mas muito mais intensa. Quando os primeiros acordes começaram e o palco foi coberto por uma névoa de gelo seco, me arrepiei. Foi a mesma deliciosa adrenalina de quando vi e ouvi os acordes do Fantasma da Ópera, no início, quando o lustre era içado ao teto do teatro, passando exatamente sobre mim. Eu sorria de orelha a orelha, é claro. Era um lugar atemporal, uma bolha de efeitos pirotécnicos, luzes, músicas e gargalhadas.

O espetáculo não deixa nada a desejar. A casa mal assombrada é um show por si só; gira e abre pelo palco em diversos momentos, como uma grande (e trevosa) casa de bonecas. As músicas são maravilhosas. O espetáculo critica a normalidade (a grande questão é Vandinha se casar com um cara normal), um irmão que se sente abandonado e não tem mais uma parceira de torturas e sempre brinca com o trágico e a morte.

"O que todo Addams almeja? Trevas, dor e indizível sofrimento." Aqui, tem essa prévia maravilhosa disponibilizada pelo cena Musical.


Os Addams:

Mais ou menos lá pelos anos 1930, um cara chamado Charles Addams criou uns personagens excêntricos que satirizavam a "vida perfeita" dos norte americanos. As tirinhas eram publicadas no jornal The New Yorker até 1988, quando Addams morreu. Aqui, vale um breve paralelo: Tim Burton, em Edward Mãos de Tesoura, faz a mesma crítica a essa sociedade perfeita. Coincidentemente, é Tim Burton o nome por trás da nova série da Netflix.


Em 1964, a série estreava na TV americana e ficaria no ar por dois anos. Me lembro de ver a série pela primeira vez em uma programação noturna do canal Nickelodeon, o Nick at Night, que exibia várias séries antigas (A Feiticeira, Jennie - É o Gênio etc) e alguns programas para adolescentes e adultos. Mas foi somente em alguma Sessão da Tarde - lá nos anos 90, que eu conhecia o que seriam um dos meus personagens favoritos da cultura pop até hoje.


Os valores:

Subvertendo a família tradicional, os Addams questionam o que é normal e não se importam com o que é ou não aceito pela sociedade, chegando a ridicularizar os outros por se acharem que eles são estranhos. A família ainda coloca em xeque outros valores: a figura do pai - que aqui é amoroso, presente e que ama ardentemente sua esposa (o contrário da figura fria de poder); a figura da mãe e mulher - que não é um objeto e reduzida a uma figura dependente do sexo masculino; a masculinidade tóxica; o que é ser normal; o papel da família; os padrões impostos pela sociedade etc.


O humor sinistro e ácido da família é abraçado e entendido como perfeito. Ser estranho é normal e o oposto, é ridículo. Charles Addams nos mostra que beleza e normalidade são relativos e seus questionamentos para a sociedade pós primeira guerra, são pertinentes quase um século depois.