• Nina Xaubet

Crítica | Persuasão



Há algum tempo a Netflix anunciou que faria uma adaptação de Persuasão, o último romance publicado por Jane Austen. Quem conhece os livros da romancista inglesa, já espera um determinado teor nos filmes e, tendo em vista "Orgulho e Preconceito" e "Razão e Sensibilidade", a régua é bem alta! E só para contextualizar: nós temos uma versão de 1995 (disponível na Amazon Prime) e uma de 2007 (não disponível nos streamings), mas as duas com boas classificações, sendo a de 95, considerada a melhor.


Para quem não conhece, vou explicar: Anne Elliot (Dakota Johnson), vive com sua família esnobe à beira da falência. Ela é uma mulher solteira que não consegue se adaptar ao seu tempo. Ao se reconectar com uma antiga paixão - quando Frederick Wentworth volta à sua vida - Anne deve escolher entre deixar o passado para trás ou ouvir seu coração e tentar dar uma segunda chance ao amor . Entre todos os acontecimentos de uma sociedade do período regencial, conhecemos os familiares e amigos dos Elliot, que o tempo todo exprimem suas opiniões a cerca do que Anne deve ou não fazer.


Ah! E vale deixar claro uma coisa: não assisti aos filmes mais antigos ainda. Li o livro, pois queria ter uma ideia mais clara das diferenças entre o filme da Netflix e a obra original. E sabendo disso, vamos ao que interessa!



De início, o livro não foi o meu favorito. A mesquinhez da família de Anne (principalmente do pai e das irmãs), foi o que mais me incomodou. Mas ao passo que a história ia crescendo e entendia os sentimentos e a protagonista, passei a gostar do livro. Talvez esta seja a história mais triste de Jane Austen. Tive a impressão de que foi com este livro que pude conhecer um pouco mais da romancista inglesa que ridicularizava a sua sociedade porque não se encaixava nos padrões do século 19. O livro carrega esse peso de um amor perdido, do sentir-se deslocado e do sentimento de não pertencimento. A angústia de Anne, talvez fosse a de Jane Austen.


Por outro lado, o filme de 2022 vem com um quê mais "moderninho", ao colocar alguns diálogos com termos mais contemporâneos ("ex", "ele é um 10") em contraste com diálogos que saíram do livro exatamente como foram escritos. Isso foi o que menos me incomodou. Na nova adaptação também temos uma Anne Elliot que fala com a câmera, um recurso pouco usado no cinema, mas muito usado no teatro (origem de Carrie Cracknell, diretora do longa). E, de certa forma, funciona para o texto do filme. O que não funciona, por outro lado, é Anne Elliot. A personagem mais introspectiva de Austen foi transformada em uma mulher cômica, que utiliza do vinho como escape para seus sentimentos e rasa. Muito rasa.



O novo Persuasão tem uma estética linda e uma fotografia de encher os olhos. Mas o visual não é suficiente para suprir a falta de personalidade de sua personagem principal. O filme peca ao não lembrar de pontos importantes da trama de Austen e que tornariam a história mais coesa, menos apressada e, talvez, mais profunda. Agora, me resta assistir a adaptação de 1995, que com certeza, é mais coesa com a obra original.